terça-feira, 25 de maio de 2010

III Ultra Trail Geira – Via Nova Romana – 52 kms

Pela 2ª vez participei na Ultra Trail da Geira Romana, este ano com 52 kms, o seu percurso foi oposto ao ano anterior. O seu início foi em Lóbios (Espanha) e chegada nas piscinas ao lado das termas de Caldelas, local muito bonito e acolhedor.
Com muita pena verifiquei que embora este ano tivesse chovido muito mais que o ano anterior, o Gerês encontrava-se quase seco, faltava muita água nos trilhos por onde passávamos, quase não havia cascatas por aquelas lindas encostas.
O rio Homem estava com o seu caudal muito baixo e para “enriquecer” e “facilitar” o dia estava quentíssimo! A Natureza é que manda!
Eu como sempre comecei a minha prova com muita cautela pois sabia o que vinha logo para começar, 2 km planos e 5 km “ligeiramente” a subir (cada um chama-lhe o que quiser).
Tive a companhia do Brito no 1º km fomos tirando fotos e filmando, depois ele seguiu para fazer a sua prova. O Mário Lima passou por mim e disse-me que o Joaquim Adelino tinha ficado e desistido pois tinha-lhe rebentado o sangue pelo nariz e não conseguia parar o sangue. Que pena pois ele seria uma excelente companhia pelo menos para algumas partes da prova. Fica para a próxima. Eu ia atrás da Dina e do Paulo Mota com o Bandarra e atrás de nós ainda vinha o Luís Duque (tigre). Chegámos ao1º abastecimento ali estava o Moutinho, a Dina não se sentia muito bem e foi falar com os bombeiros, eu segui com o Bandarra, apercebi-me que estávamos na cauda do pelotão, poucos havia atrás de nós. Fiquei assustada! Mas a seguir vinha uma boa descida embora um pouco técnica resolvi arriscar e ganhar tempo, passei à frente do Bandarra e ultrapassamos dois atletas que iam com receio da descida.
Entretanto vejo o Mário Lima e a Rosa Pratas que estavam a tentar passar o rio, quando mesmo ao lado tinham as fitas a indicar o 1º ponto de controlo e a passagem por uma ponte de madeira, nestas provas uma pequena distracção leva-nos a tomar direcções e decisões erradas, gritei por eles e continuei. Pensei que logo na próxima subida o Mário me viesse apanhar, entretanto fiquei sem o Bandarra, cheguei ao estradão de terra e tentei manter o ritmo foram os kms que fiz mais rápido alguns a 5’20, os carros que por vezes passavam levantavam muita poeira era MAU!!!! Passei um atleta que caminhava ainda me tentou acompanhar mas desistiu, comecei a avistar duas atletas à minha frente e fui tentando apanha-las só o consegui no 2º abastecimento mas mal cheguei elas partiram. Eram a Analice e a Teresa Couto, eu bebi um copo de Isostar, água, lavei a cara e lá fui. Seguia pelo estradão que eu sabia estar quase a acabar, depois viramos à esquerda para baixo e mais uma parte técnica com bastantes pedras mas curta, aqui encontro a Analice que descia quase de gatas (AHAHAH) é o ponto fraco dela as descidas! Deu-me passagem e disse-me “que não queria cair nem por nada” passei a Teresa mas resolvi esperar por elas pois se tinha finalmente encontrado companhia não me valia a pena seguir agora sozinha! Apreciei a vista magnifica da barragem de Vilarinho das Furnas e fui tirando umas fotos, mas continuávamos a correr, aqui uma parte da mata está queimada é uma desolação!
Entramos então em alcatrão onde estava uma ambulância e um socorrista numa bicicleta que nos perguntou se estava tudo bem? Nós confirmamos que sim! Aproveitamos a descida no alcatrão e demos-lhe gás, mas na “subidinha” antes da aldeia campos do Gerês eu e a Teresa ficamos a passo e deixa-mos de ver a Analice que seguiu no seu passinho pequeno mas certinho.
Nas descidas facilmente vamos com a Analice mas nas subidas é uma “tortura” tentar acompanhá-la, é uma mulher com uma garra fora de série, no entanto correr ao lado dela é um prazer pois ela consegue cantar, contar histórias, brincar com as “fraquezas” dos homens. Está sempre bem disposta, nada a chateia!
Entretanto ela apanhou boleia de outro atleta. Fiquei com a Teresa que foi a minha confrade de toda a prova. Mais tarde somos apanhadas pela Analice que se tinha perdido (coisa habitual nela) seguiu connosco mais algum tempo, mas depressa se fartou e deixou-nos outra vez, só a voltei a ver no fim da prova.
Entretanto fomos encontrando alguns atletas que tinham partido mais rápido e agora já pagavam a “factura” pois o calor era muito! Mesmo havendo muitas sombras, a água era pouca! Que saudades dos riachos, da lama e do tempo encoberto do ano passado!
Fomos correndo e caminhando, gerindo o nosso esforço, a Dina e o Paulo Mota tinham-nos alcançado, juntámo-nos também ao Nuno (que tirou fotos fantásticas) e ao Manuel Fonseca, o nosso grupo aumentava, os kms iam passando o calor aumentava, as queixas vinham do Paulo Mota que ralhava quando a Dina aumentava o ritmo ou a distância!
Eu de vez em quando lembrava-me do Mário e do Bandarra achava estranho nenhum me ter apanhado. No 3º abastecimento encontro o Bandarra sentado e pergunto-lhe, como é que me passaste, não te vi? Ele triste apontou-me um pé quase fora da meia e respondeu-me “estou lesionado!!!” tinha vindo de carro para ali. Que mau! Que frustrante! Queremos tanto algo e de repente puff! Lá se vão as nossas esperanças!
Paciência, para o ano há mais Geira!
Mais uns kms feitos, a Caledónia foi feita com um calor abrasador, as vacas espertas estavam debaixo das poucas árvores que havia. È uma paisagem magnifica, adoro aquela parte, tão despida de tudo, só arbustos pequeninos e gigantescas rochas e nós tão pequenitos a correr lentamente por um carreirinho. ADOREI!
Mais abastecimentos foram aparecendo eu bebi bastante, comer é que não conseguia, só um cubo de marmelada ou um gomo de laranja a banana não conseguia, ia bebendo os meus gels e os meus cubos de presunto quando me sentia mais fraca.
Lá íamos nós para a última subida anunciada pelo Moutinho a tal com 10% de inclinação em 600 e tal metros, a Dina enchesse de forças e abandona-nos nunca mais lhe pusemos a vista em cima, o Paulo Mota, outro Sr. (desculpe não sei o nome), o Nuno e o Fonseca tinham ficado para trás. Só restava eu e a Teresa e lá fomos caminhando o mais que conseguíamos quando chegámos ao topo, dissemos uma para a outra, “o pior já está” e lá fomos descendo agora uma descida com muita areia grossa, grandes frestas no chão, pedras por todo o lado, a descer para mim é mais fácil. Mas a Teresa teve que abastecer que já se sentia fraca (atenção que ela come como nunca vi, até pizza ela comeu) ficando melhor lá fomos tentando não nos enganarmos em lado nenhum.
Olhava para o relógio a ver os kms a passar, numa descida encontro sentado num muro e debaixo de uma árvore com outro atleta e um socorrista de BTT, o meu colega de equipa o Jorge Santos que tinha vindo com o Brito até aos 27 km mas depois não conseguiu mais,
disse-me que tinha “estoirado” com o calor eu disse-lhe que já faltava pouco eram os últimos 3 kms ! Que fixe estava quase! Ele disse que já vinha. Passamos uma aldeia vimos a estrada em alcatrão e pensávamos que era para lá que íamos …….mas não!
Virávamos á direita e mais uma subida em calçada grande que ia dar a uma quinta linda em total abandono (que pena) já não tive força para tirar a máquina para tirar fotos. Continuamos, entramos em Amares por estradinhas e encontramos a Dina Fonseca e a Yolanda preocupadas, pois o Luís (Tigre) vinha em último e ainda nos 44km. Avisaram-nos com o piso escorregadio e com os degraus e que a meta estava quase! Que BOM, uns senhores logo em seguida também nos aconselharam com os degraus escorregadios vimos um tanque cheio de água mas já não paramos agora era correr sempre para a META.
Descemos os degraus! Ai,Ai! Os meus dedos dos pés, coitados! Mas já estavam ali os últimos metros foi pena serem no passeio pois eu e a Teresa tínhamos que nos desviar das árvores do meio até á entrada da piscina. Aplausos de alguns familiares de atletas e oiço o Moutinho a chamar-me de “campeã” e a aplaudir-me! Obrigada Moutinho! E senti-me uma Campeã, pois cheguei ao fim sem me perder, sem me lesionar, sem me chatear, sem me arrepender, pelo contrário FELIZ comigo por ter feito 52kms em 7h38’20.
Fiz quase o dobro do tempo do primeiro que foi o Hélder Ferreira, do União de Tomar, com 4h03’. Eu e a Teresa fizemos o último controlo e vejo logo o Brito que me esperava receoso que eu não acabasse dentro do tempo limite. Mas ainda consegui! Ainda tinha dado tempo de tirar mais fotos!
Fica para o ano! Obrigada Teresa pela companhia e a todos os outros atletas.
No final soube que o Mário infelizmente tinha caído e feito uma lesão grave e estava triste porque o apoio que teve dos socorristas foi mau! É pena, são situações dessas que estragam boas provas e fazem desanimar mesmo os atletas mais fortes.
Eu só tenho uma falha a apontar que me toca a mim quando acabei o meu banho já não havia massagens nem o Brito já teve, pois esteve á minha espera e os massagistas só davam as tais depois de tomarmos banho! Quando acabamos já tinham arrumado tudo. Que bem que me iam saber, eu bem as merecia! Podem ter a certeza!
Em relação ás marcações e abastecimentos estava tudo muito bem, o percurso era mais DURO que o ano passado mas foi feito com coragem e determinação, sem pôr em causa “o que estava eu ali a fazer”
Que dava “jeito” mais pessoal ao longo do percurso a dar algum apoio aos atletas isso “Dava” mas não é fácil encontrar quem se disponibilize a passar horas sozinha em cruzamentos para bater umas palmitas aos atletas que vem aos soluços!
Podem ter a certeza que não é fácil!
Os meus Parabéns aos atletas que superaram a Geira Romana e o meu afecto para aqueles que infelizmente não conseguiram, não desanimem, pois Novas Geiras Romanas viram para serem superadas e ultrapassadas.
Agora falta tomar a decisão se sigo ou não para a próxima etapa .
SIM ou NÃO quem vencerá? A cabeça ou o coração!

Ultra – Otília

11 comentários:

V. Ferreira disse...

Olá Otilia.
É um previlégio ser o primeiro a comentar.
Excelente descrição da prova. Que maravilha de prova a senhora fez, parabéns.
Foi o que me fez falta, pois não controlei e acabei controlado.
Um abraço ao Brito e obrigado pela ajuda.
Se quiserem rir um pouco vão a http://paxim.blogspot.com/
Agora só falta a “Rainha” do trail, a Freita, vamos ganhar a “Finisher”.
V.Ferreira

Susana disse...

Olá Otíla, gostei muito do teu relato, deve ser uma sensação de vitória mesmo acabar um desafio desses!
Muitos Parabéns a ti e ao Brito também!
Tudo de bom!

António Almeida disse...

Bravo Ultra Otília, excelente prova e excelente relato, senti-me a correr a teu lado o que teria sido para mim uma honra e um enorme prazer.
Concordo contigo, grande reportagem fotográfica que o Nuno fez ao longo de toda a prova.
Agradecer também a tua simpatia (e a do Brito).
E por fim ouve o teu coração.
Beijinhos das meninas e forte abraço do teu amigo corredor.
Abraço ao Brito.
Com admiração.

António Bento disse...

olá Otília, olá Brito
Parabéns pela excelente prova que realizaram. que classe! que gozo seguir este relato, empolgante, vivido, emocional, que me permitiu seguir ao lado dos mentores de Almourol, que tanto prazer me deu.
força nessa recuperação e para próximo desafio.
e Otília, razão ou emoção? existirá escolha possível, no minuto seguinte ao minuto em que terminamos? o espírito ultra vai decidir e aposto que sei qual é a decisão ... !
Beijo e um forte abraço Amigo, com uma enorme admiração
AB - Tartaruga

p.s. - e OBRIGADO! apareçanm sempre no Tartaruga, gosto de vocês.

Paula Pinto disse...

Parabéns!
Venho sempre "espreitar" os meus conterrâneos já que "correr" ao lado deles é impossível!
Um beijinho e uma pontinha de "inveja" pela sensação maravilhosa que deve ser participar numa prova dessas!

Muitas felicidades.
Ana Paula pinto
(http://alemvirtual.blogs.sapo.pt)

joaquim adelino disse...

Que bonita história Otília que aqui nos deixas, foi tudo o que eu perdi mas que conto reencontrar na próxima edição. não me vou lamentar mais, só quero dizer-te que foste uma grande Campeã ao superares aquele desafio de forma brilhante e tranquila, sempre apontada para o risco de chegada, para ti vai a minha admiração.
Para o Brito vai também uma saudação muito especial, tem conseguido superar com estoicismo e bravura todos os desafios a que se tem proposto, (corridas e treinos), fazer apesar dos problemas de saúde que o têm chateado recentemente.
Fiquei muito contente quando o vi passar por mim aos 50kms de prova, ofereci-lhe água e simpáticamente recusou olhando certamente para os outros que aí vinham e estavam mais necessitados do que ele, se já o admirava que dizer deste gesto? Já não te esperei naquele lugar porque a minha rapaziada já me esperava para almoçar.
Espero que o teu grande desafio seja dicidido pelos dois sentidos, o Coração e a Cabeça, só assim conseguirás superar aquilo que nos espera. Desta vez não te vou largar, a experiência que já adquiriste vai ajudar-me imenso, assim eu tenha pernas para te acompanhar.
Um beijinho do Pára e um abraço ao Brito.

Rui Pena disse...

Olá Ultra Otília,

Gostei muito de ler o teu relato... vamos ver se numa das próximas Novas Geiras Romanas arranjo um espaço no meu calendário.

Continuem a correr e colocar aqui os relatos. Obrigado.

Rui

BritoRunner disse...

Olá amigos a todos agradeço as palavras carinhosas e motivadoras que vão deixando na minha simples descrição de mais uma aventura por "estradas" Romanas.

Bons treinos e melhor descanso porque EU gosto muito da parte do "descanso"

Otília

Mário Lima disse...

Otília

Para já o meu Obrigado por tudo o que tens feito por este aprendiz de trails e afins.

:)

Agora o tal lençol que de vez em quando escrevo.

Quando me meti nesta aventura e soube que tu e o Brito iam, fiz o meu plano de acção. Com o Brito era impossível ir pois é pedalada a mais para a minha camioneta. Então o plano era, ir sempre contigo e com o Joaquim. Um (tu) teria a experiência, o outro (Joaquim) a resistência. Esta dupla aliada é um inexperiente como eu daria o trunfo final que era acabarmos a Geira juntos.
O Pára ficou logo à partida e eu fui sempre correndo, fazendo o possível para não te perder de vista. Adiantava-me para as fotos, mas sempre vendo onde estava a t-shirt branca que era a tua.
Quando me viste junto à ponte eu não fazia menção de sair dali. Estava à espera que passasses pois, sabia, por onde tu fosses esse era o caminho. Infelizmente houve duas situações que me atrasaram, foi a queda da Rosa e a lesão do Bandarra. Estive um pouco com eles e só quando vi outro grupo é que parti à tua procura.

Vi que estavas a tirar fotos e eu feliz da vida a fazê-lo também. Só que eu, feito zé nabo, perdi-me a olhar para aquele rio e não reparei que já não te via. Olhei para todo o lado e deu-me para seguir em frente quando afinal tu tinhas descido para a barragem, no tal local, que como escrevo no meu tema, não vi. Mas a maior parvoíce foi que se fosses sempre em frente para onde eu fui, eu teria que te ver. Não te vi e continuei. A partir daí foi o descalabro. Aprendi a lição.

Parabéns pela tua prova, (tenho que ver as tuas fotos, devem estar fabulosas) e obrigado mais uma vez pelo teu cuidado. Para o ano estarei lá, tenho que me “vingar” da Geira.

:)

Tudo de bom

luis mota disse...

Olá Otília e Brito!
Mais uma grande aventura a vossa.
Felicito-vos pela coragem em enfrentar tamanho desafio e de ter conseguido superar com sucesso as dificuldades.
Votos de boa recuperação,
Luís Mota

Vitor Veloso disse...

Olá Otília,
parabéns pela segunda participação na ultra da geira, numa excelente descrição de uma prova bem concebida por si.
Boa recuperação
bjs
Vítor Ruth e Carolina