sexta-feira, 2 de julho de 2010

A FREITA VENCEU

No sábado quando deixei os meus filhotes em casa dos meus pais pedi-lhes um grande abraço, pois a próxima vez que me vissem seria uma pessoa diferente. Muitas aventuras iria ter no fim-de-semana, e isso foi verdade, mas não imaginava que incluía a parte de ser uma DESISTENTE.
Em 10 anos de corridas e marcha nunca tinha desistido, nem por lesão nem por cansaço.
Mas há sempre uma 1ª vez para tudo e a minha vez chegou na Senhora Freita.
Eu e o Brito fizemos uma boa viagem íamos olhando um para o outro e riamo-nos do frio que sentíamos no estômago nem eram precisas palavras.
Chegando ao parque de campismo do Merujal encontramos logo muitas caras conhecidas.
Montamos a nossa tenda perto da do Aníbal e família e fomos ouvir a palavras do Moutinho, que não eram muito encorajadoras pois falavam do calor, do percurso muito difícil, das horas nos controles, das muitas desistências que de certeza iria haver no dia seguinte.
No entanto todos nós nos íamos rindo e mandando piadas que a Freita não era nenhum Papão. O jantar correu muito bem na companhia do Adelino do Fernando Andrade, da Ana Paula Pinto e do António e outros atletas a conversa girava á volta da “loucura” de todos nós em nos propormos a uma aventura daquelas.
Chegou a hora de preparar as mochilas para o dia seguinte e tentar descansar os ossos o melhor que conseguíssemos. A noite passou rápido, às 4 horas da manhã já andava tudo de um lado para o outro, quando coloquei a minha mochila nas costas quase que andava para trás (3 kg pelo menos). Ás 5 horas lá estavam cerca de 185 atletas prontinhos para a sua aventura, feita as últimas recomendações pelo José Moutinho é dada a partida.
Meu Deus! Que ansiedade, vou correndo e penso como será que vou chegar ao fim!
O Brito vai comigo nos 1ºs quilómetros e tirando algumas fotos, a Célia Azenha passa por mim e diz que não quer ficar sozinha por causa do rio. Mas a mim não é o rio que me preocupa!
A manhã está maravilhosa o sol vai nascendo!
Aos 7 km tenho 57 minutos e penso que até não está mal.
Tenho sempre companhia. Vou com a Ana Lourenço que me diz que quer fazer a Freita entre 11h e 12h eu digo-lhe que para mim as 15 horas são o paraíso e a meta a atingir, ela diz-me que vive em França e já fez muitas provas, a próxima é o Mont Blanc ( 166 km) e que onde treina é sempre a subir. Penso se sou eu a Sortuda ou ela!
Mais tarde penso que ela é a Sortuda pois conseguiu acabar a Freita, foi a 2ª mulher e chegou com 14h28. Parabéns Ana!
Ela avança e eu continuo na retaguarda, chegamos às portas do inferno e ao trilho do carteiro, o sol está a nascer, é um espectáculo, vamos passando pelas minas de volfrâmio e imagino as vidas que ali trabalharam e sinto-me uma sortuda por apenas ali correr. Já no alcatrão sou alcançada pela Analice que continua a correr mesmo na subida, e me diz que com calma vamos chegar ao fim!
Mas depois da subida vem uma descida algo difícil até ao rio. Passo por ela e finalmente entramos no rio é por “ELE” que eu faço esta prova. A Analice fica para trás!
É um espectáculo ir saltando de pedra em pedra entrando e saindo na água, nesta altura vou com muita companhia (há quem mude de sapatilhas) quando temos de atravessar o rio de margem a margem há quem fique no banho! Eu resolvo seguir!

Quase no fim do rio encontro o Moutinho que me diz que tenho 45 minutos até ao controle (4h/20 km) e para ir saltitando para ganhar tempo! Saio do rio e já no alcatrão, sabia que o Adelino vinha atrás resolvo tirar as pedras e aliviar os pés! O Adelino chega e vamos correndo e caminhando até ao abastecimento/controle dos 20 kms. Chegamos com 3h31, bebo coca-cola e como marmelada e deixo de ver o Adelino e penso que já foi embora, resolvo ir também sem descansar muito, mas não queria ficar sozinha, farto-me de andar depressa e correr onde posso, mas nunca mais o apanho.
Vou falando com o Brito pelo telemóvel e ele vai bem. Eu vou dizendo que se calhar não chego ao fim, que o tempo está passar muito rapidamente. Na descida para a aldeia de Drave corro e tenho a companhia de dois atletas de Abrantes.
Parece um lugar de outro mundo! A seguir vem a 1ª grande subida. A imponente Drave, vou subindo e encontrando atletas sentados nas sombras de pequenos arbustos para ganhar forças!
Eu lá vou subindo e parando, olhando a vista maravilhosa, para respirar e comer bocadinhos de presunto, UUMM! Chego ao topo e tenho uma grande dor no joelho direito, peço a um socorrista para me pôr spray frio e fico melhor, começo a descer para a aldeia de Goudim e próximo abastecimento (31km).
Passo por atletas que mesmo a descer, ali até era estradão optam apenas por caminhar eu vou correndo, senão corro ali, também não corro em lado nenhum!
Chego ao abastecimento apenas uma torneira onde vários atletas enchem o camelbag eu faço o mesmo, tomo um gel e lá vou de novo.
Corremos numa zona ao lado do rio é fresco e sombrio serve para descansar para o que ai vem outra vez, temos que passar de novo um pequeno rio, alguns atletas descalçam-se e tiram meias para se porem de molho! Eu tiro só a mochila das costas (que alivio) até estou marreca e sento-me dentro de água os gémeos e joelhos agradecem.
Alguns atletas nem param eles não sabem o que os espera! Ui!Ui! É a famosa GARRA!
Deixo a água (com muita pena) e lá vou eu outra vez, a Analice aparece vem já muito cansada e diz me que isto não está fácil pois há poucos sítios onde podemos correr.
Aqui, quem tem bastões consegue progredir melhor. Sou apanhada pelo Rogério Morais que ainda vem com o Astral alto e por um grupo de madeirenses que dizem que é mais fácil fazer a Ultra da Madeira a Analice ri-se e diz “que venha o Diabo e escolha” (ahahah).
A Analice queixa-se e ralha que o tempo está a passar! Não é normal nela, isso demonstra a dureza da subida! Vai ficando para trás com o grupo dos madeirenses. Eu vou indo na peugada do Rogério, conversamos sobre os Trilhos do Almourol e esqueço-me um pouco do cansaço de subir as últimas pedras até ao topo.
Finalmente chegamos ao cimo e encontramos alcatrão, (maravilhoso alcatrão) o problema é agora correr. As pernas não querem estão rijas de tanto subir. Vou marchando o Rogério corre, mas a velocidade é igual!
A Analice apanha-nos está no seu terreno a subir ligeiramente e em alcatrão, entramos depois nos estradões das eólicas consigo finalmente correr. Deixo quase de ver os meus companheiros. Mas aqueles 3 km passam rápido!
Chegamos ao Trilho dos Incas e começo a descer, está muito fechado com estevas que nos rasgam as pernas e pedras e paus por todo o lado é uma autentica ravina! Tenho que ter cuidado onde coloco os pés mas vou correndo na mesma. Encontro novamente o Rogério e a Analice que diz “deixa passar a miúda que ela desce muito bem” AHAHAH Fico toda orgulhosa pelo elogio! E lá vou deixando-os para trás.
Olho para o relógio e faço planos, tenho 8h20 de prova se chegar a tempo ao abastecimento/controle (40 km/9h) vou continuar! Descanso 10 ou 15 minutos e continuo pelo menos até aos 50 ou 55 kms depois logo se vê! Sentia-me bem, mesmo com o joelho a queixar-se. Arranjo outras companhias descemos até um vale com uma sombra fantástica há atletas que querem lá ficar pois vamos começar outra vez a subir!
Mas só faltava cerca de 1 km para o controle, estava quase!
E lá chegamos ao abastecimento/controle com 8h38, estava dentro do tempo. Que BOM!
Mas, para meu espanto encontro um grande grupo de atletas, todos sentados (sem exagero uns 20), e pergunto-lhes o que fazem ali todos no descanso vão me respondendo que acabaram ali a sua prova! Atletas com grande experiência em provas de 100km e mais, estavam a desistir!
Alguns dizem que infelizmente estão lesionados o caso do Victor Ferreira (Guru da Laminha) que deu “cabo” de uma “pedra” com o joelho e do Tiago Branco também lesionado. Outros porque não esperavam tanta dureza na prova, e tanto calor.
E eu desanimo não estava á espera daquilo, fiquei sem força para continuar o ânimo que trazia à 10 minutos atrás desapareceu, de repente senti-me exausta. Mudei os planos e resolvi ficar também e dar por acabada a minha prova o Victor dizia-me para eu continuar, mas não conseguia, tinha Medo do que vinha a seguir.
Sabia que já não consegui chegar a tempo ao controle dos 65 kms (14h) pois faltavam-me 25 km e tinha só 5h40 para os fazer e eu sabia que a seguir vinha outra subida de 3 km que me ia demorar mais de 1 hora só para a fazer. Nunca ia chegar a tempo!
Chega o Rogério e só no último minuto do controle a Analice. Abastecem e dizem-me que vão seguir, chamam –me várias vezes para eu continuar com eles e EU NÃO CONSIGO IR! SOU uma GALINHA!
Penso em tanta coisa, telefono ao Brito e digo-lhe que fico ali! Ele diz – me que se calhar é o melhor, porque nem ele sabe se vai conseguir chegar a tempo ao controle. As subidas são duríssimas e o calor está demais! Eu penso que se continuar vou ultrapassar o meu limite físico e mental e se ficarmos os dois assim exaustos não conseguiríamos ajudar-nos um ao outro no fim da prova!
Pronto! Acabou mesmo o SONHO de ser uma FINISHER na Freita!
A seguir vem o Adelino e o Andrade já fora do controle, são informados que já não podem continuar ao que eles respondem que também já não queriam, já estavam exaustos!
Eu a pensar que o Adelino estava já para a frente e ele a tentar apanhar-me.
O Rogério e a Analice ficaram ao km 55,  cerca de 100 atletas desistiram nesta prova!

Eu não fui enganada para a UTSF!
Eu fui para a Freita sabendo muito bem o que me esperava, conhecia até aos 50 kms sabia que dificilmente chegaria ao fim dentro do tempo das 15 horas. É pouco para a maioria dos atletas. Mas tinha a ESPERANÇA de chegar mais á frente, não consegui!
Só posso culpar a mim própria e talvez o calor.
Mas fico satisfeita pelo prazer de estar na partida de uma prova tão carismática e de ter passado o Rio, pois é espectacular.
Se aprendi algo é que por vezes á coisas que não conseguimos Ultrapassar, temos que aceitar as nossas fraquezas e darmo-nos por satisfeitos por ter tentado.
Continuo a pensar que a Freita é Inesquecível, Maravilhosa e Muito DURA quem tem a capacidade de chegar ao fim é uma pessoa fora do comum.
Que o diga o FINISHER cá de casa!
Que só três dias depois caiu em si, levantou os braços e gritou “ SOU UM FINISHER da FREITA”.
Parabéns a todos que chegaram ao Fim!
E PARABÉNS para aqueles que como Eu ficaram pelo caminho.
Agradeço a quem esteve comigo no final á espera do Brito principalmente á Ana Paula Pinto e ao António, toda a preocupação e carinho que ofereceram.
Até á Próxima!
Otília

11 comentários:

Ricardo Baptista disse...

Grande Otília,
Achas que desistir a meio é mau? Tiveste a coragem de te apresentares à partida e sabias precisamente o que te espereva. O que não foi bom para ti foi veres tanta gente ali, se não houvesse ninguém tinhas continuado, não era?
Pensa assim: foi mais um treino: pró ano não me escapas!
Mas digo-te uma coisa, pelos relatos que já li é bem durinha, e qualquer um que tenha começado já é um vencedor.
Para o ano há mais Freita, não é? Quem sabe não nos encontramos por lá..
Parabéns. E parabéns ao Brito por ser um finisher.

Fernando Andrade. disse...

Olá Otília.
Belo relato, que me fez "refazer" esta prova singular.
A decisão de abandonar aos 40 (por vontade própria) foi mais difícil que a minha (por obrigação,eheh).
Mas nunca pensei que uma desistência me tenha trazido tanta satisfação, depois de ver o estado em que os valentes iam chegando.
Foi um prazer,ter partilhado consigo os km iniciais, pois enquanto eu fiquei a saborear a água do Rio, a Otília pisgou-se e nunca mais a vi. Grande Prova, sim senhor. A desistência foi apenas um pormenor.
Grande Beijinho e um Abraço ao Finisher lá de casa.
FA

Luis disse...

Grande Mulher,
parabéns pelo relato, muito bom.

Eu não tenho dúvida que pela forma como encaras a prova serás uma Finisher numa próxima edição, tens a atitude necessária. E a Freita está lá, à nossa espera!

António Bento disse...

olá Otília,
A Freita venceu??? Talvez!
Mas pelo que li, a Freita foi mais do que uma vencedora, foi uma cúmplice para te tornares mais forte e para poderes gritar bem alto que alinhaste no desafio e te fizeste ao caminho. E só isso já é (quase) tudo. Mostra uma certa raça e garra!
O resto, sem dúvida seria glorioso, mas essa aprendizagem já ninguém te tira.
Um beijinho enorme com uma total admiração.
Um abraço ao Brito Finisher e ver se o rapaz engorda, pois na foto no final está muito magrito :)))
Força nessas corridas.
AB - Tartaruga

Mário Lima disse...

Olá Otília

Este teu relato da prova é mais do que suficiente para se saber que a Freita é tudo menos Trail (se é que eu sei o que é isso de Trail).

Na opinião de muitos participantes, aquilo é um misto de alpinismo, montanhismo, muito caminhar e pouco correr.

Não sabia que um Trail era isto. O João Garcia deve agradecer uma prova assim para se preparar para mais uma vitória num Monte Everest qualquer.

O que aqui descreves é bem demonstrativo da dureza da prova. O facto de teres visto os tais 20 atletas, alguns de gabarito, a desistirem foi a "machadada" final no teu querer. Se eles, que fazem mais de 100 km, estavam ali, quem seria a Otília para desafiar o "inferno" que viria a seguir?

Talvez a desistência tenha sido o melhor, mas a Otília foi vencida pela Freita mas não ficou convencida.

Para o ano irás querer lá ir, mas queres "apostar" que para o ano serão 80 (ou mais) os km a "devorar"?

O curioso é que pelos relatos todos são unânimes a dizerem que a prova é dura demais (mesmo para aqueles que a acabaram) mas depois a frio, reconhecem que vencer esse desafio é algo como ir ao céu e voltar (lembrei-me de Almourol e a minha reacção final). O Brito é um Finisher da Freita, mas só o reconheceu três dias depois, tal foi a "tareia" que levou.

:)

O facto de teres lá estado e teres percorrido o que percorreste, faz de ti uma vencedora. O resto da prova é de somenos importância. Afinal houve quem, a meia-dúzia de km do final, tenha desistido por ter ultrapassado o tempo pré-definido. Esforço inglório!

Parabéns, para o ano há mais.

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

Otília, tu és uma valente, Mulher!

Só embarcar nesse sonho, muitos meses antes, treinar afincadamente para o realizar, e a forma como enfrentaste a Serra até resolveres terminar, é digno da minha maior admiração!

Galinha?! Oh rapariga, foste uma valente, é a conclusão a que chego ao ler-te atentamente e tentando te visualizar no terreno, o que sei ser impossível, pois acho que a Freita "grande" (já fiz 2 pequenas) é daquelas coisas que "só visto"!!!

Olha Otília, pior que desistente é a galinha que nem sai da capoeira para treinar e que tem medo de sequer pensar meter-se numa coisa dessas. Esses sim, são galinhas! (eu??)

Um grande beijinho para ti, e sim, enaltece o teu feito! Porque é de enaltecer! Estás bonita nas fotos que vi por aí (net), e mereces toda a minha admiração, pois para além de correres tens outras corridas que te exigem ainda um maior esforço e dedicação: ser mãe! Para além de outras que desconheço.

Espero que a dor no joelho não seja nada de grave, e que recuperes muito bem. Pode ser, poder que um dia "a gente" se encontre assim num desafio megalómano, nem que seja eu a aplaudir-te!

Ana Pereira

Jorge Branco disse...

Freita não a venceu o campeonato ainda não acabou para o ano há mais!
Parabéns pela coragem e e pelo belo relato.
Quanto a dureza da prova se não fosse dura era outra coisa qualquer mas não era a Freita. Eu nunca lá fui porque não tenho condições para a fazer mas não vou querer que a suavizem para me ser acessível!
Só penso que os tempos para a fazer deviam ser alargados de modo a dar possibilidades a mais gente de a completar e que têm que ter toda a atenção com a segurança pois quanto mais dura é uma prova mais segurança requer.
Viva a Freita assim como vivam todas as provas de montanha quer sejam mais curtas mais compridas, mais fáceis ou mais difíceis!
Quando mais variedade de provas mais possibilidade de escolha temos e ninguém vai a Freita nem a prova, nenhuma, obrigado!

António Almeida disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
António Almeida disse...

Otília
tenho que te confessar que acreditava que ias terminar, aliás penso que não fosse o controlo de tempo e terias mesmo terminado.
Fica decerto uma grande experiência e só é desistente aquele que se atreve a partir.
Com admiração.
Parabéns pelo relato, senti-me a correr ao teu lado.
Forte abraço.
António Almeida

luis mota disse...

Olá Otília!
Uma grande vencedora. Muitos parabéns!
As palavras transmitem a emoção de um dia de sonho.
Espero que recuperes do esforço, felicito o Brito pelo resultado, mas o meu grande reconhecimento vai para ti pela coragem e empenho que tiveste em prova, não fossem os limites de tempo e a Otília teria vencido a Freita.
Com admiração,
Luís Mota

Rui Pena disse...

Olá Otília e Brito,


Pelo que tenho lido, não era pêra doce...

Deixo os parabéns ao Brito... e parece-me a a Otília não tem um discurso desistente... bem pelo contrário :) ... vou continuar a acompanhar-vos por aqui para ver o que ai vem.